PARA VOCÊ LER NAS HORAS VAGAS DO DOMINGO OU DA SEGUNDA, TERÇA E ASSIM POR DIANTE....
Thomas De Quincey: Writings, XIII, 345
LEIA SOBRE De Quincey EM: http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_de_Quincey
E SOBRE PARACELSO EM:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paracelso
E SOBRE PARACELSO EM:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Paracelso
Em sua oficina, que abarcava os dois
quartos do porão, Paracelso pediu a seu Deus, a seu indeterminado Deus, a
qualquer Deus, que lhe enviasse um discípulo. Caía a tarde. O escasso fogo da
lareira arrojava sombras irregulares. Levantar-se para acender a lâmpada de
ferro era demasiado trabalho. Paracelso, distraído pela fadiga, esqueceu sua
prece. A noite, havia apagado os empoeirados alambiques e o atanor quando
bateram na porta.
O homem, sonolento, se levantou,
subiu a breve escada de caracol e abriu uma das folhas da porta. Entrou um
desconhecido. Também estava muito cansado. Paracelso lhe indicou um banco; ou
outro se sentou e esperou. Durante um tempo não trocaram uma palavra.
O mestre foi o primeiro que falou:
-
Lembro caras do Ocidente e caras do Oriente – falou sem certa pompa – Não
lembro a vossa. Quem sois e que desejais de mim?
-
Meu nome é o de menos – replicou o outro – Três dias e três noites tenho
caminhado para estar na tua casa e quero ser teu discípulo. Trago-te todos meus
bens – e tirou um taleigo que colocou sobre a mesa. As moedas eram muitas e de
ouro.
Fê-lo com a mão direita. Paracelso
lhe havia dado as costas para acender a lâmpada. Quando se voltou, viu que na
mão esquerda ele sustentava uma rosa, que o inquietou. Recostou-se, juntou as
pontas dos dedos e falou:
-
Crede-me capaz de elaborar a pedra que transforma todos os elementos em ouro e
oferecei-me ouro. Não é ouro o que procuro, e se o ouro importa-vos, não sereis
meu discípulo.
-
O ouro não me importa – respondeu o outro -. Essas moedas não são mais que uma
parte de minha vontade de trabalho. Quero que me ensineis a Arte.
-
Quero percorrer a vosso lado o caminho que conduz à Pedra.
Paracelso falou devagar:
-
O caminho é a Pedra. O ponto de partida é a Pedra. Se não entendeis estas
palavras, nada ainda entendeis. Cada passo que dareis é a meta.
O outro o olhou com receio. Falou com voz
distinta:
-
Mas, há uma meta?
Paracelso se
riu.
-
Meus difamadores, que não são menos numerosos que estúpidos, dizem que não e me
chamam um impostor. Não lhes dou a razão, mas não é impossível que seja uma
ilusão. Sei que "há" um Caminho.
-
Estou pronto a percorrê-lo convosco, ainda que devamos caminhar muitos anos.
Deixai-me cruzar o deserto. Deixai-me divisar, sequer de longe, a terra
prometida, ainda que os astros não me deixem pisá-la. Quero uma prova antes de
empreender o caminho.
-
Quando? – falou com inquietude Paracelso.
-
Agora mesmo – falou com brusca decisão o discípulo.
Haviam começado falando em latim; agora, em
alemão. O garoto elevou no ar a rosa.
-
É verdade – falou – que podeis queimar uma rosa e fazê-la ressurgir das cinzas,
por obra de vossa Arte. Deixai-me ser testemunho desse prodígio. Isso vos peço,
e vos darei, depois, minha vida inteira.
-
Sois muito crédulo – falou o mestre – Não sois menestrel da credulidade. Exijo
a Fé!
O outro insistiu.
-
Precisamente porque não sou crédulo quero ver com meus olhos a aniquilação e a
ressurreição da rosa.
Paracelso a havia tomado, e ao falar brincava
com ela.
-
Sois crédulo – falou -. Dizei-me se sou capaz de destruí-la?
-
Ninguém é incapaz de destruí-la – falou o discípulo.
-
Estais equivocado. Acreditais, porventura, que algo pode ser devolvido ao nada?
Acreditais que o primeiro Adão no Paraíso pode haver destruído uma só flor ou
um fio de erva?
-
Não estamos no Paraíso – falou teimosamente o garoto – Cá, abaixo da lua, tudo
é mortal.
Paracelso se havia posto em pé.
-
Em que outro lugar estamos? Acreditais que a divindade pode criar um lugar que
não seja o Paraíso? Acreditais que a Queda é outra coisa que ignorar que
estamos no Paraíso?
-
Uma rosa pode queimar-se – falou, com desafio, o discípulo.
-
Ainda fica fogo na lareira – falou Paracelso –
Se atirais esta rosa as brasas, acreditaríeis que tenha sido consumida e
que a cinza é verdadeira. Digo-vos que a rosa é eterna e que só sua aparência
pode mudar. Bastar-me-ia uma palavra para que a visse de novo.
-
Uma palavra? – falou com estranheza o discípulo – O atanor está apagado e estão
cheios de pó os alambiques. O que faríeis para que ressurgissem?
Paracelso olhou-o com tristeza.
-
O atanor está apagado – reiterou – e estão cheios de pó os alambiques. Nesta
etapa de minha longa jornada uso outros instrumentos.
-
Não me atrevo a perguntar quais são – falou o outro, deixando Paracelso na
dúvida se foi com astúcia ou com humildade. E continuou – Falastes do que usou
a divindade para criar os céus e a terra. Falastes-me do invisível Paraíso em
que estamos e que o pecado original nos oculta. Falastes-me da Palavra que nos
ensina a ciência da Cabala. Peço-vos, agora, a mercê de mostrar-me o
desaparecimento e aparecimento da rosa. Não me importa que opereis com
alambiques ou com o Verbo.
Paracelso reflexionou. Ao cabo, falou:
-
Se eu o fizesse, diríeis que se trata de uma aparência imposta pela magia de
vossos olhos. O prodígio não vos daria a Fé que buscais: Deixai, pois, a Rosa.
O jovem o olhou, sempre receoso. O mestre
elevou a voz e lhe falou:
-
Além disso, quem sois para entrar na casa de um mestre e exigir-lhe um
prodígio? Que tenhais feito para merecer semelhante dom?
O outro replicou, temeroso:
-
Já que nada tenho feito. Peço-vos em nome dos muitos anos que estudarei à tua
sombra que me deixais ver a cinza e depois a Rosa. Não vos pedirei nada mais.
Crerei no testemunho de meus olhos.
Tomou com brusquidão a rosa encarnada
que Paracelso havia deixado sobre a cadeira e à atirou a as chamas. A cor se
perdeu e só ficou um pouco de cinza. Durante um instante infinito, esperou as
palavras e o milagre.
Paracelso não se havia alterado. Falo
com curiosa clareza:
-
Todos os médicos e todos os boticários de Basiléia afirmam que sou um farsante.
Talvez eles estejam certos. Aí está a cinza que foi a rosa e que não o será.
O jovem sentiu vergonha. Paracelso
era um charlatão o um mero visionário e ele, um intruso, havia franqueado sua
porta e o obrigava agora a confessar que suas famosas artes mágicas eram vãs.
Ajoelhou-se, e falou:
-
Tenho agido imperdoavelmente. Tem-me faltado a Fé, que exigíeis dos crentes.
Deixai-me seguindo ver as cinzas. Voltarei quando for mais forte e serei vosso
discípulo e, no final do Caminho, verei a Rosa.
Falava com genuína paixão, mas essa
paixão era a piedade que lhe inspirava o velho mestre, tão venerado, tão
agredido, tão insigne e portanto tão oco. Quem era ele, Johannes Grisebach,
para descobrir com mão sacrílega que detrás da máscara não havia ninguém?
Deixar-lhe as moedas de ouro seria esmola. Retomou-as ao sair.
Paracelso acompanhou-o ate
o pé da escada e falou-lhe que em sua casa seria sempre bem-vindo. Ambos sabiam
que não voltariam a ver-se. Paracelso ficou sé. Antes de apagar a lâmpada e de
sentar-se na velha poltrona, derramou o tênue punhado de cinza na mão côncava e
falou uma palavra em voz baixa. A Rosa ressurgiu.


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