Pensamentos sobre terapia com sonhos, Cabalá – dúvidas?
Inicialmente pensei em nomear este
texto “Considerações sobre Cabalá e terapia com sonhos”. Conforme fui
escrevendo, deixei de lado a Cabalá para consolidar melhor pensamentos sobre
sonhos e terapia, fundamentais para uma melhor compreensão posterior da
Cabalá. E dar dicas para você ampliar o
tema.
Não havendo harmonia entre quem
você realmente é (sua forma essencial - espírito) e a sua vida cotidiana
(alma), gera-se um processo de redução da defesa imunológica do corpo. Isso já
é sabido e aceito pela medicina moderna como processo psicossomático. A
medicina tem feito progressos extraordinários com a utilização de drogas e
tecnologia. Mas em termos de mente continuamos gatinhando. O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, disse
certa vez:
“O homem satisfaz à
necessidade da expressão mítica quando possui uma representação que explique
suficientemente o sentido da existência humana no cosmos, representação que
provém da totalidade da alma, isto é, da cooperação
do consciente (alma) com o inconsciente (espírito)[1]. A carência de sentido impede a plenitude
da vida e significa, portanto, doença”.[2]
Embora Jung tenha dito isto
recentemente em termos de nossa história, esta é uma verdade que está implícita
em todo o ser humano. Profundamente impresso em nosso inconsciente pessoal
(espírito), com quem, aparentemente, entramos em contato direto quando
sonhamos. Um estado decorrente de mergulho profundo, tal como acontece mais
levemente quando vamos ao cinema, assistimos a uma palestra interessante ou
mesmo guiamos “distraidamente” e sem perceber chegamos ao destino. Já aconteceu
com você? Nesses momentos, onde você está realmente? Quem guiava?
Vamos fazer uma curta
retrospectiva para focar na história da cura, visto que a palavra terapeuta, do
grego therapeutés, significando
“aquele que trata, cuida (dos deuses, cura)”. A propósito de Grécia, havia naquele país uma
tradição clássica de induzir os pacientes ao “sono” com soníferos e analisar o
seu sonho no dia seguinte – a partir do qual o terapeuta fazia o seu
diagnóstico. Ah, sim, na Bíblia de Jerusalém, há um texto diz “Médico,
cura-te a ti mesmo”. É uma tradução certamente incorreta da palavra grega, cujo significado verdadeiro
mencionei acima. Por que, de verdade, a cura pertence a outro nível.
Sem me alongar demais, em todas as
tradições clássicas a terapia do sonho era praticada. Desde os tempos mais
primitivos, como verificamos junto aos xamãs dos dias de hoje, sobreviventes em
regiões primitivas da Sibéria. Entre os nossos índios também. Senão vejamos como
exemplo o conteúdo de um texto arcaico:
“E o incorpóreo não pode ser
encerrado por nada; mas pode em si encerrar todas as coisas; é a mais rápida de
todas as coisas; e você verá que é assim. Peça à sua alma que viaje a qualquer
região que escolher, e assim que você tiver pedido para ir, lá ela estará. Peça
que passe de uma terra para o oceano, e estará lá não menos rapidamente; ela
não se moveu como nos movemos de lugar para lugar, mas está lá. Peça que voe
para o céu, e ela não terá necessidade de asas; nada poderá barrar o seu
caminho, nem o forte calor do sol, nem o rodopiar das esferas-planetas;
rompendo o seu caminho através de tudo, ela irá voar até que alcance o mais
externo de todas as coisas corpóreas”.[3]
O sonho acompanha o ser humano
desde a sua origem, atravessando os séculos e as regiões com nomes diversos
acompanhados por mal entendidos entre aqueles que apregoavam o seu uso,
sobremaneira com o circo místico que tomou conta de incautos e supersticiosos.
Assim, deixou-se de estudá-lo ou empregá-lo adequadamente e com consistência
para fins terapêuticos. Apenas alguns poucos, mais modernos, como Ivan Pavlov
(1849 -1936), Pierre Janet (1849 -1947), Freud e Jung continuaram a estudar,
ainda que não utilizando forma ostensiva. Se alguém tiver qualquer dúvida sobre
a eficácia do sonho acusando de “misticismo”, vale aqui lembrar novamente o que
disse Jung:
“O corpo tem uma pré-história
anatômica de milhões de anos - o mesmo
acontece com o sistema psíquico. O corpo humano atual representa em cada uma das
partes o resultado desse desenvolvimento, transparecendo as etapas prévias de
seu presente; o mesmo acontece com a psique.”[4]
Nos Atos do Apóstolo Pedro da
Biblioteca de Nag Hammadi , consta
este relato em que Pedro fala a pessoas
presentes sobre Deus e usa sua filha inválida como exemplo:
Então Pedro sorriu e
disse-lhe, “Meu filho, é aparente
apenas para Deus porque o seu corpo (referindo-se ao corpo da sua própria filha
paralisada) não é saudável. Saiba,
então, que Deus não foi fraco ou incapaz de dar um corpo saudável à minha
filha. Mas para que a sua alma possa ser persuadida e àqueles que estão aqui a
ter mais fé” - Então ele olhou para a
sua filha e disse para ela: “Levante-se do seu lugar! Não deixe ninguém
ajudá-la a não ser apenas Jesus, e caminhe perfeita na frente de toda essa
gente! Venha para mim!” E ela levantou-se e foi até ele. A turba rejubilou-se
pelo que havia acontecido. Pedro disse-lhes, “Vejam, os seus corações foram
persuadidos de que Deus não é impotente em relação a qualquer coisa que peçamos
para Ele.” Então eles se rejubilaram ainda mais e honraram a Deus.
Pedro disse à sua filha, “Vá
para o seu lugar, e sente-se, e torne-se novamente inválida. Porque isso é um
benefício para você e para mim.” E a menina voltou ao seu lugar, sentou-se e
tornou-se como era antes. (...)
Pedro disse-lhes, “Enquanto o
Senhor vive, isso é um benefício para ela e para mim. Porque no dia em que ela nasceu eu tive uma visão e
o Senhor disse-me, “Pedro, nasceu para você hoje uma grande provação. Porque
essa (filha) machucará muitas almas se o seu corpo permanecer saudável. Mas eu
achei que a visão estava caçoando de mim.”[5]
O terapeuta se preocupa (Jung) com
a cura enquanto que o outro (Pedro), religioso e aparentemente mais próximo do
numinoso[6],
age com naturalidade frente a um fato de cura “extraordinário” e mais ainda ao
revertê-lo – neste caso, os menos desavisados já vêem um milagre. Ambos são
homens que creram, mas que tiveram visões diferentes da sua crença. Acho relevante a reação de Jung, sobretudo
por ele ter definido a sua crença numa frase profunda de alguém que sabia
“escutar” e “sabia que sabia”:
“Minha
vida é a história de um inconsciente que se realizou”[7]
Mas Jung perdeu a excelente
oportunidade de resgatar de forma mais concreta o sonho como ferramenta
terapêutica. A propósito, diz Aniela
Jaffé, a biógrafa de Jung:
“Mesmo uma descida ao
inconsciente, empreendida conscientemente, e uma confrontação ativa com os seus
conteúdos - que Jung chamava
“imaginação ativa” - conduz, se não sempre, na maioria das vezes, a uma
experiência do numinoso”.[8]
Portanto cura, cura divina!
Este contato com o numinoso não
pressupondo cura, não pressuporia, pelo menos, melhor qualidade de vida? Por
que Jung não prosseguiu? Quantos terapeutas poderiam realizar-se melhor profissionalmente
prendendo-se menos a “escolas” e mais às necessidades do seu paciente? A
pergunta seria:
“Com que ferramenta posso
curá-lo?”
e não
“Tenho que curá-lo com a “minha”
técnica terapêutica!”
Ou, voltando a enfatizar Lucas 4, 23:
“ Terapeuta, cura-te a ti mesmo.”
Convém observar que muitos
“pacientes” curados pelo terapeuta Jesus não sabiam se seriam ou como seriam
curados. Alguns apenas creram, tiveram fé na “cura”... realizada por um “terapeutés” competente: Jesus! Outros nem tinham condições de
perceber alguma coisa, a fé do terapeuta os curou!
Para não estender mais o assunto
apenas na teoria, os sonhos têm-se mostrados extremamente eficazes e rápidos na
melhora ou até cura em casos de:
- dor
sem analgesia,
- desordens
somáticas e psicossomáticas,
- hipertensão,
- úlceras,
- impotência,
ejaculação precoce,
- depressão
reativa,
- fobias,
Síndrome de Pânico
- e
muito mais.
Vale a pena também ressaltar o
extraordinário trabalho com “visualização” com pacientes de câncer realizado
por Melanie e Carl Simonton[9]
com extraordinário sucesso. É mundialmente conhecido como Método Simonton
amplamente utilizado em hospitais dos EUA. Há também muito a aprender sobre
sonhos com o Milton H. Erickson Institute, Phoenix, Arizona, U.S.A[10].
Para finalizar, na Bíblia, sonho é
mencionado 94 vezes relacionado a coisas muito importantes na vida dos
sonhadores; apenas relembrando o que geralmente acontece com quem sonha:
“E eles lhe disseram: Tivemos um sonho, e ninguém há que o
interprete. E José disse-lhes: Não são de Deus as interpretações? Contai-mo,
peço-vos.”
(Gênesis, 40:8 – Bíblia de Jerusalém – Edições Paulinas.)
Como
disse, a Cabalá fica para outra vez! Fique por aqui e se surpreenda...
Amém!
[1] Negrito e
parênteses meus.
[2] Memórias,
sonhos e reflexões. Ed. Nova Fronteira. p. 294.
[3] Texto
original em ingles. And the incorporeal cannot be enclosed by
anything; but it can itself enclose all things; it is the quickest of all
things, and you will see that it is so. Bid your soul travel to any land you
choose, and sooner than you can bid it go, it will be there. Bit it pass on
from land to ocean, and it will be there too no less quickly; it has not moved
as one moves from place to place, but is there. Bir it fly up to heaven, and it
will have no need of wings; nothing can bar its way, neither fiery heat of the
sun, not the swirl of the planet-spheres; cleaving its way through all, it will
fly up till it reaches the outermost of all corporeal things. (Hermetica-The ancient greek and latin writings which
contain religious or philoshopic teachings ascribed to Hermes Trimegistus, Editado e traduzido do grego por Sir Walter
Scott(1771-1832), Shamballa, USA, 1993, Pág. 219 – minha tradução livre para português)
[4]Memórias,
sonhos e reflexões. Ed. Nova Fronteira.; p. 300.
[5]The nag
hammadi library; Gnostic scriptures; Harper S. Francisco; 1988; p. 530 – minha
tradução livre para português.
[6] adj (lat numen+oso) Segundo a filosofia da
religião de Rudolf Otto, aplica-se ao estado religioso da alma inspirado pelas
qualidades transcendentais da divindade. Diccionario
Online de Portugués - http://www.dicio.com.br/numinoso/
[7]Jaffé, A.;
Memórias, sonhos e reflexões, compilação e prefácio; Ed. Nova Fronteira; p. 19
[8]Jaffé, A.; O
mito do significado; Ed. Cultrix; p. 60.
